1.13.2005
Construção da paz
Kofi Annan, Secretário Geral da Organização das Nações Unidas.
9 de Dezembro de 2004
in «EXPRESSO»
Há quinze anos o mundo estava profundamente dividido quanto às estratégias de desenvolvimento económico. Os países ricos apoiavam o «consenso de Washington» e o «ajustamento estrutural» - políticas que desagradavam vivamente aos próprios países em desenvolvimento e que eram ferozmente criticadas pelos movimentos da sociedade civil o mundo industrializado.
Assumia-se que as Nações Unidas eram irrelevantes neste assunto ou, pior ainda, uma parte interessada em nome de governos corruptos e gastadores dos países em desenvolvimento.
Hoje em dia, as coisas mudaram muito. A discussão sobre política de desenvolvimento - que inclui os grandes países industrializados - está marcada por um amplo acordo entre dadores e recebedores de assistência quanto ao que cada um precisa para alcançar o desenvolvimento. Três importantes reuniões internacionais - a Cimeira do Milénio da ONU em 2000 e as conferências da ONU sobre financiamento para o desenvolvimento em Monterrey e sobre o desenvolvimento sustentável, em Joanesburgo, em 2002 - conduziram a um notável consenso mundial sobre a forma de fazer crescer a economia, diminuir a pobreza e proteger o ambiente.
Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, definidos para quatro anos, são os critérios que permitirão medir o nível de desenvolvimento até 2015. Incluem reduzir a metade a percentagem de pessoas que sofrem de fome e miséria extremas; alcançar a escolaridade básica universal; aumentar o poder e o estatuto das mulheres; reduzir drasticamente a mortalidade materno-infantil; travar a disseminação da sida e da malária; levar todos os países a adoptar políticas que sejam social e ambientalmente sustentáveis; e - de importância vital se os outros objectivos forem alcançados - desenvolver uma parceria global entre países ricos e pobres, baseada em mercados abertos, na redução da dívida, no investimento e em ajuda financeira cuidadosamente orientada.
Se vamos ou não atingir esses objectivos até é ainda muito incerto, especialmente na África subsariana Africa, onde um esforço muito maior é necessário, tanto de dadores como de muitos governos africanos. Mas pelo menos na luta por um mundo mais justo e mais próspero temos agora um acordo sobre o que é preciso fazer.
Lamentavelmente, estamos ainda longe de chegar a um consenso semelhante sobre como tornar o mundo mais seguro. Aí as coisas só pioraram nos últimos anos. Um momento de solidariedade global contra o terrorismo em 2001 foi rapidamente substituído por discussões azedas sobre a guerra no Iraque, que se revelaram sintomáticas de divisões mais profundas sobre questões fundamentais: Qual a melhor maneira de nos protegermos do terrorismo e das armas de destruição maciça? Quando é permissível o uso da força - e quem deve decidir? Será que a «guerra preventiva» se justifica por vezes ou trata-se simplesmente de agressão sob outro nome? E num mundo que se tornou «unipolar», que papel devem desempenhar as Nações Unidas?
Esses novos debates vieram sobrepor-se a outros já iniciados na década de 1990. A soberania do Estado é um princípio absoluto ou será que a comunidade internacional tem a responsabilidade de prevenir ou resolver conflitos no interior dos Estados - especialmente quando envolvem genocídio ou outras atrocidades comparáveis?
Para sugerir respostas a estas perguntas nomeei há um ano uma comissão de 16 homens e mulheres ilustres dos quatro cantos do mundo e de diferentes áreas de actividade - política, militar, diplomática, económica e social. Pedi-lhes que ajuizassem as ameaças com que a humanidade hoje se defronta e que recomendassem medidas sobre o que temos de mudar, nas nossas políticas e instituições, para fazer frente a essas ameaças.
No dia 2 de Dezembro entregaram-me o seu relatório: «Um Mundo mais Seguro - A nossa Responsabilidade Comum». As suas 101 recomendações são o conjunto de propostas mais abrangente e coerente que até hoje vi para criar uma resposta comum a ameaças comuns.
Apresenta uma explicação clara e a reafirmação do direito à auto-defesa, orientações sobre o uso da força para ajudar o Conselho de Segurança a lidar mais decisivamente e mais resolutamente tanto com as atrocidades em massa no interior dos Estados como em «cenários de pesadelo» (por exemplo, aqueles em que se combinam terroristas com armas de destruição maciça), acordo sobre uma definição de terrorismo (que até agora escapou à comunidade internacional) e propostas para evitar uma escalada da proliferação nuclear e para melhorar a bio-segurança. Contém ainda uma série de propostas práticas para modernizar os organismos da ONU - incluindo o Conselho de Segurança - e tornar a organização mais eficaz, nomeadamente na prevenção e construção da paz.
Acima de tudo, explica em pormenor as interligações do nosso tempo, em que os destinos dos povos e os perigos que enfrentam se entrelaçam. Não apenas uma ameaça contra um país é uma ameaça contra todos os outros, como a incapacidade para lidar com uma ameaça contra uma nação pode derrubar a nossa defesa contra todas as outras. Um grande atentado terrorista no coração do mundo industrializado pode arrasar a economia mundial, mergulhando milhões de pessoas novamente na miséria extrema; e o colapso de um Estado na região mais pobre do mundo pode abrir um enorme buraco na nossa defesa comum tanto contra o terrorismo como contra as doenças epidémicas.
Poucas pessoas poderão ler este relatório e ter dúvidas de que tornar o mundo mais seguro é de facto uma responsabilidade comum, bem como um interesse comum.
O relatório diz-nos como fazê-lo e por que razão temos de actuar agora. Põe a bola com firmeza no campo dos líderes políticos mundiais. Exorto-os a pegarem nela e correrem. A oportunidade é demasiado importante para se perder.
Há quinze anos o mundo estava profundamente dividido quanto às estratégias de desenvolvimento económico. Os países ricos apoiavam o «consenso de Washington» e o «ajustamento estrutural» - políticas que desagradavam vivamente aos próprios países em desenvolvimento e que eram ferozmente criticadas pelos movimentos da sociedade civil o mundo industrializado.
Assumia-se que as Nações Unidas eram irrelevantes neste assunto ou, pior ainda, uma parte interessada em nome de governos corruptos e gastadores dos países em desenvolvimento.
Hoje em dia, as coisas mudaram muito. A discussão sobre política de desenvolvimento - que inclui os grandes países industrializados - está marcada por um amplo acordo entre dadores e recebedores de assistência quanto ao que cada um precisa para alcançar o desenvolvimento. Três importantes reuniões internacionais - a Cimeira do Milénio da ONU em 2000 e as conferências da ONU sobre financiamento para o desenvolvimento em Monterrey e sobre o desenvolvimento sustentável, em Joanesburgo, em 2002 - conduziram a um notável consenso mundial sobre a forma de fazer crescer a economia, diminuir a pobreza e proteger o ambiente.
Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, definidos para quatro anos, são os critérios que permitirão medir o nível de desenvolvimento até 2015. Incluem reduzir a metade a percentagem de pessoas que sofrem de fome e miséria extremas; alcançar a escolaridade básica universal; aumentar o poder e o estatuto das mulheres; reduzir drasticamente a mortalidade materno-infantil; travar a disseminação da sida e da malária; levar todos os países a adoptar políticas que sejam social e ambientalmente sustentáveis; e - de importância vital se os outros objectivos forem alcançados - desenvolver uma parceria global entre países ricos e pobres, baseada em mercados abertos, na redução da dívida, no investimento e em ajuda financeira cuidadosamente orientada.
Se vamos ou não atingir esses objectivos até é ainda muito incerto, especialmente na África subsariana Africa, onde um esforço muito maior é necessário, tanto de dadores como de muitos governos africanos. Mas pelo menos na luta por um mundo mais justo e mais próspero temos agora um acordo sobre o que é preciso fazer.
Lamentavelmente, estamos ainda longe de chegar a um consenso semelhante sobre como tornar o mundo mais seguro. Aí as coisas só pioraram nos últimos anos. Um momento de solidariedade global contra o terrorismo em 2001 foi rapidamente substituído por discussões azedas sobre a guerra no Iraque, que se revelaram sintomáticas de divisões mais profundas sobre questões fundamentais: Qual a melhor maneira de nos protegermos do terrorismo e das armas de destruição maciça? Quando é permissível o uso da força - e quem deve decidir? Será que a «guerra preventiva» se justifica por vezes ou trata-se simplesmente de agressão sob outro nome? E num mundo que se tornou «unipolar», que papel devem desempenhar as Nações Unidas?
Esses novos debates vieram sobrepor-se a outros já iniciados na década de 1990. A soberania do Estado é um princípio absoluto ou será que a comunidade internacional tem a responsabilidade de prevenir ou resolver conflitos no interior dos Estados - especialmente quando envolvem genocídio ou outras atrocidades comparáveis?
Para sugerir respostas a estas perguntas nomeei há um ano uma comissão de 16 homens e mulheres ilustres dos quatro cantos do mundo e de diferentes áreas de actividade - política, militar, diplomática, económica e social. Pedi-lhes que ajuizassem as ameaças com que a humanidade hoje se defronta e que recomendassem medidas sobre o que temos de mudar, nas nossas políticas e instituições, para fazer frente a essas ameaças.
No dia 2 de Dezembro entregaram-me o seu relatório: «Um Mundo mais Seguro - A nossa Responsabilidade Comum». As suas 101 recomendações são o conjunto de propostas mais abrangente e coerente que até hoje vi para criar uma resposta comum a ameaças comuns.
Apresenta uma explicação clara e a reafirmação do direito à auto-defesa, orientações sobre o uso da força para ajudar o Conselho de Segurança a lidar mais decisivamente e mais resolutamente tanto com as atrocidades em massa no interior dos Estados como em «cenários de pesadelo» (por exemplo, aqueles em que se combinam terroristas com armas de destruição maciça), acordo sobre uma definição de terrorismo (que até agora escapou à comunidade internacional) e propostas para evitar uma escalada da proliferação nuclear e para melhorar a bio-segurança. Contém ainda uma série de propostas práticas para modernizar os organismos da ONU - incluindo o Conselho de Segurança - e tornar a organização mais eficaz, nomeadamente na prevenção e construção da paz.
Acima de tudo, explica em pormenor as interligações do nosso tempo, em que os destinos dos povos e os perigos que enfrentam se entrelaçam. Não apenas uma ameaça contra um país é uma ameaça contra todos os outros, como a incapacidade para lidar com uma ameaça contra uma nação pode derrubar a nossa defesa contra todas as outras. Um grande atentado terrorista no coração do mundo industrializado pode arrasar a economia mundial, mergulhando milhões de pessoas novamente na miséria extrema; e o colapso de um Estado na região mais pobre do mundo pode abrir um enorme buraco na nossa defesa comum tanto contra o terrorismo como contra as doenças epidémicas.
Poucas pessoas poderão ler este relatório e ter dúvidas de que tornar o mundo mais seguro é de facto uma responsabilidade comum, bem como um interesse comum.
O relatório diz-nos como fazê-lo e por que razão temos de actuar agora. Põe a bola com firmeza no campo dos líderes políticos mundiais. Exorto-os a pegarem nela e correrem. A oportunidade é demasiado importante para se perder.
(c) 2004, Global Viewpoint
Distribuído por Tribune Media Services, INC.
Tradução de Aida Macedo
9 de Dezembro de 2004
in «EXPRESSO»
Há quinze anos o mundo estava profundamente dividido quanto às estratégias de desenvolvimento económico. Os países ricos apoiavam o «consenso de Washington» e o «ajustamento estrutural» - políticas que desagradavam vivamente aos próprios países em desenvolvimento e que eram ferozmente criticadas pelos movimentos da sociedade civil o mundo industrializado.
Assumia-se que as Nações Unidas eram irrelevantes neste assunto ou, pior ainda, uma parte interessada em nome de governos corruptos e gastadores dos países em desenvolvimento.
Hoje em dia, as coisas mudaram muito. A discussão sobre política de desenvolvimento - que inclui os grandes países industrializados - está marcada por um amplo acordo entre dadores e recebedores de assistência quanto ao que cada um precisa para alcançar o desenvolvimento. Três importantes reuniões internacionais - a Cimeira do Milénio da ONU em 2000 e as conferências da ONU sobre financiamento para o desenvolvimento em Monterrey e sobre o desenvolvimento sustentável, em Joanesburgo, em 2002 - conduziram a um notável consenso mundial sobre a forma de fazer crescer a economia, diminuir a pobreza e proteger o ambiente.
Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, definidos para quatro anos, são os critérios que permitirão medir o nível de desenvolvimento até 2015. Incluem reduzir a metade a percentagem de pessoas que sofrem de fome e miséria extremas; alcançar a escolaridade básica universal; aumentar o poder e o estatuto das mulheres; reduzir drasticamente a mortalidade materno-infantil; travar a disseminação da sida e da malária; levar todos os países a adoptar políticas que sejam social e ambientalmente sustentáveis; e - de importância vital se os outros objectivos forem alcançados - desenvolver uma parceria global entre países ricos e pobres, baseada em mercados abertos, na redução da dívida, no investimento e em ajuda financeira cuidadosamente orientada.
Se vamos ou não atingir esses objectivos até é ainda muito incerto, especialmente na África subsariana Africa, onde um esforço muito maior é necessário, tanto de dadores como de muitos governos africanos. Mas pelo menos na luta por um mundo mais justo e mais próspero temos agora um acordo sobre o que é preciso fazer.
Lamentavelmente, estamos ainda longe de chegar a um consenso semelhante sobre como tornar o mundo mais seguro. Aí as coisas só pioraram nos últimos anos. Um momento de solidariedade global contra o terrorismo em 2001 foi rapidamente substituído por discussões azedas sobre a guerra no Iraque, que se revelaram sintomáticas de divisões mais profundas sobre questões fundamentais: Qual a melhor maneira de nos protegermos do terrorismo e das armas de destruição maciça? Quando é permissível o uso da força - e quem deve decidir? Será que a «guerra preventiva» se justifica por vezes ou trata-se simplesmente de agressão sob outro nome? E num mundo que se tornou «unipolar», que papel devem desempenhar as Nações Unidas?
Esses novos debates vieram sobrepor-se a outros já iniciados na década de 1990. A soberania do Estado é um princípio absoluto ou será que a comunidade internacional tem a responsabilidade de prevenir ou resolver conflitos no interior dos Estados - especialmente quando envolvem genocídio ou outras atrocidades comparáveis?
Para sugerir respostas a estas perguntas nomeei há um ano uma comissão de 16 homens e mulheres ilustres dos quatro cantos do mundo e de diferentes áreas de actividade - política, militar, diplomática, económica e social. Pedi-lhes que ajuizassem as ameaças com que a humanidade hoje se defronta e que recomendassem medidas sobre o que temos de mudar, nas nossas políticas e instituições, para fazer frente a essas ameaças.
No dia 2 de Dezembro entregaram-me o seu relatório: «Um Mundo mais Seguro - A nossa Responsabilidade Comum». As suas 101 recomendações são o conjunto de propostas mais abrangente e coerente que até hoje vi para criar uma resposta comum a ameaças comuns.
Apresenta uma explicação clara e a reafirmação do direito à auto-defesa, orientações sobre o uso da força para ajudar o Conselho de Segurança a lidar mais decisivamente e mais resolutamente tanto com as atrocidades em massa no interior dos Estados como em «cenários de pesadelo» (por exemplo, aqueles em que se combinam terroristas com armas de destruição maciça), acordo sobre uma definição de terrorismo (que até agora escapou à comunidade internacional) e propostas para evitar uma escalada da proliferação nuclear e para melhorar a bio-segurança. Contém ainda uma série de propostas práticas para modernizar os organismos da ONU - incluindo o Conselho de Segurança - e tornar a organização mais eficaz, nomeadamente na prevenção e construção da paz.
Acima de tudo, explica em pormenor as interligações do nosso tempo, em que os destinos dos povos e os perigos que enfrentam se entrelaçam. Não apenas uma ameaça contra um país é uma ameaça contra todos os outros, como a incapacidade para lidar com uma ameaça contra uma nação pode derrubar a nossa defesa contra todas as outras. Um grande atentado terrorista no coração do mundo industrializado pode arrasar a economia mundial, mergulhando milhões de pessoas novamente na miséria extrema; e o colapso de um Estado na região mais pobre do mundo pode abrir um enorme buraco na nossa defesa comum tanto contra o terrorismo como contra as doenças epidémicas.
Poucas pessoas poderão ler este relatório e ter dúvidas de que tornar o mundo mais seguro é de facto uma responsabilidade comum, bem como um interesse comum.
O relatório diz-nos como fazê-lo e por que razão temos de actuar agora. Põe a bola com firmeza no campo dos líderes políticos mundiais. Exorto-os a pegarem nela e correrem. A oportunidade é demasiado importante para se perder.
Há quinze anos o mundo estava profundamente dividido quanto às estratégias de desenvolvimento económico. Os países ricos apoiavam o «consenso de Washington» e o «ajustamento estrutural» - políticas que desagradavam vivamente aos próprios países em desenvolvimento e que eram ferozmente criticadas pelos movimentos da sociedade civil o mundo industrializado.
Assumia-se que as Nações Unidas eram irrelevantes neste assunto ou, pior ainda, uma parte interessada em nome de governos corruptos e gastadores dos países em desenvolvimento.
Hoje em dia, as coisas mudaram muito. A discussão sobre política de desenvolvimento - que inclui os grandes países industrializados - está marcada por um amplo acordo entre dadores e recebedores de assistência quanto ao que cada um precisa para alcançar o desenvolvimento. Três importantes reuniões internacionais - a Cimeira do Milénio da ONU em 2000 e as conferências da ONU sobre financiamento para o desenvolvimento em Monterrey e sobre o desenvolvimento sustentável, em Joanesburgo, em 2002 - conduziram a um notável consenso mundial sobre a forma de fazer crescer a economia, diminuir a pobreza e proteger o ambiente.
Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, definidos para quatro anos, são os critérios que permitirão medir o nível de desenvolvimento até 2015. Incluem reduzir a metade a percentagem de pessoas que sofrem de fome e miséria extremas; alcançar a escolaridade básica universal; aumentar o poder e o estatuto das mulheres; reduzir drasticamente a mortalidade materno-infantil; travar a disseminação da sida e da malária; levar todos os países a adoptar políticas que sejam social e ambientalmente sustentáveis; e - de importância vital se os outros objectivos forem alcançados - desenvolver uma parceria global entre países ricos e pobres, baseada em mercados abertos, na redução da dívida, no investimento e em ajuda financeira cuidadosamente orientada.
Se vamos ou não atingir esses objectivos até é ainda muito incerto, especialmente na África subsariana Africa, onde um esforço muito maior é necessário, tanto de dadores como de muitos governos africanos. Mas pelo menos na luta por um mundo mais justo e mais próspero temos agora um acordo sobre o que é preciso fazer.
Lamentavelmente, estamos ainda longe de chegar a um consenso semelhante sobre como tornar o mundo mais seguro. Aí as coisas só pioraram nos últimos anos. Um momento de solidariedade global contra o terrorismo em 2001 foi rapidamente substituído por discussões azedas sobre a guerra no Iraque, que se revelaram sintomáticas de divisões mais profundas sobre questões fundamentais: Qual a melhor maneira de nos protegermos do terrorismo e das armas de destruição maciça? Quando é permissível o uso da força - e quem deve decidir? Será que a «guerra preventiva» se justifica por vezes ou trata-se simplesmente de agressão sob outro nome? E num mundo que se tornou «unipolar», que papel devem desempenhar as Nações Unidas?
Esses novos debates vieram sobrepor-se a outros já iniciados na década de 1990. A soberania do Estado é um princípio absoluto ou será que a comunidade internacional tem a responsabilidade de prevenir ou resolver conflitos no interior dos Estados - especialmente quando envolvem genocídio ou outras atrocidades comparáveis?
Para sugerir respostas a estas perguntas nomeei há um ano uma comissão de 16 homens e mulheres ilustres dos quatro cantos do mundo e de diferentes áreas de actividade - política, militar, diplomática, económica e social. Pedi-lhes que ajuizassem as ameaças com que a humanidade hoje se defronta e que recomendassem medidas sobre o que temos de mudar, nas nossas políticas e instituições, para fazer frente a essas ameaças.
No dia 2 de Dezembro entregaram-me o seu relatório: «Um Mundo mais Seguro - A nossa Responsabilidade Comum». As suas 101 recomendações são o conjunto de propostas mais abrangente e coerente que até hoje vi para criar uma resposta comum a ameaças comuns.
Apresenta uma explicação clara e a reafirmação do direito à auto-defesa, orientações sobre o uso da força para ajudar o Conselho de Segurança a lidar mais decisivamente e mais resolutamente tanto com as atrocidades em massa no interior dos Estados como em «cenários de pesadelo» (por exemplo, aqueles em que se combinam terroristas com armas de destruição maciça), acordo sobre uma definição de terrorismo (que até agora escapou à comunidade internacional) e propostas para evitar uma escalada da proliferação nuclear e para melhorar a bio-segurança. Contém ainda uma série de propostas práticas para modernizar os organismos da ONU - incluindo o Conselho de Segurança - e tornar a organização mais eficaz, nomeadamente na prevenção e construção da paz.
Acima de tudo, explica em pormenor as interligações do nosso tempo, em que os destinos dos povos e os perigos que enfrentam se entrelaçam. Não apenas uma ameaça contra um país é uma ameaça contra todos os outros, como a incapacidade para lidar com uma ameaça contra uma nação pode derrubar a nossa defesa contra todas as outras. Um grande atentado terrorista no coração do mundo industrializado pode arrasar a economia mundial, mergulhando milhões de pessoas novamente na miséria extrema; e o colapso de um Estado na região mais pobre do mundo pode abrir um enorme buraco na nossa defesa comum tanto contra o terrorismo como contra as doenças epidémicas.
Poucas pessoas poderão ler este relatório e ter dúvidas de que tornar o mundo mais seguro é de facto uma responsabilidade comum, bem como um interesse comum.
O relatório diz-nos como fazê-lo e por que razão temos de actuar agora. Põe a bola com firmeza no campo dos líderes políticos mundiais. Exorto-os a pegarem nela e correrem. A oportunidade é demasiado importante para se perder.
(c) 2004, Global Viewpoint
Distribuído por Tribune Media Services, INC.
Tradução de Aida Macedo