Terá sido isto? Que desilusão! Nós que não fazemos as coisas por menos, não podemos deixar de mostrar alguma tristeza e desilusão com um terramoto como o desta manhã. Cinco vírgula oito na escala aberta de Richter, mas que merda é esta? Uns segundos de tremideira que não mandou ninguém ao chão e pronto, está vivido o maior sismo registado e sentido em Portugal nos últimos trinta anos. Não há recordes do Guinness, não há um maremotozito, não há uns quantos desabamentos? Choradeiras no Jornal Nacional? Nem uma!
E depois, o que vem a ser isso da escala aberta de Richter? Aberta? Mas de onde vem essa evolução no conceito do qual eu não estou informado. Sempre foi aberta? Passou a ser aberta? Porque é que a população não foi informada previamente disto e foi necessário as coisas terem acontecido? Isto sim, são questões verdadeiramente fracturantes na real acepção do termo. Que a próxima fractura faça jus à nossa apetência por grandes realizações, que isto está a precisar de um sério abanão e o progressismo do nosso sim do último domingo pode ter sido excepção à regra.
# posted by J. @ 5:52 a.m.

Por Shlomo Avineri - professor de Ciência Política na Universidade Hebraica de Jerusalém;
Exclusivo PÚBLICO/ Project Syndicate
Sábado, 29 de Janeiro de 2005
A euforia que saudou a eleição de Mahmoud Abbas para presidente da Autoridade Palestiniana talvez se justifique. Mas agora é tempo de uma apreciação clara do que se apresenta aos palestinianos, aos israelitas e, talvez de forma mais importante, ao mundo árabe em geral.
Tal apreciação requer o reconhecimento de que a eleição não foi sem falhas: o Hamas e a Jihad Islâmica boicotaram as eleições e Marwan Barghouti, membro da Fatah tal como Abbas e o candidato que poderia gravemente desafiá-lo, foi persuadido pela liderança do movimento a retirar a sua candidatura, de forma a apresentar uma frente unida. Além disso, Abbas (também conhecido por Abu Mazen) conseguiu colocar sob seu controlo uma dezena de serviços e milícias de segurança palestinianos. Isto garantiu a sua vitória, se bem que os desfiles de homens armados a agitar armas nos seus comícios não seja exactamente o que as normas democráticas prevêem.
No entanto, permanece o facto de que, depois de décadas de liderança autocrática de Yasser Arafat, e apesar dos constrangimentos óbvios da contínua ocupação israelita, os palestinianos elegeram um presidente numa eleição relativamente livre e competitiva. Durante anos, Arafat evitou efectuar eleições, tal como requerido pelas leis da Autoridade Palestiniana, sob o pretexto de que não se poderiam efectuar sob ocupação: mas, dois meses depois da sua morte, houve eleições, com grande êxito.
As presidenciais vão obviamente servir como catalisador para negociações renovadas - e possivelmente com mais êxito - com Israel. Mas o impacto do voto palestiniano também será observado atentamente no mundo árabe, porque o que aconteceu na Cisjordânia e na Faixa de Gaza não tem paralelo nos anais da política árabe. Abbas beneficiará do facto de ter sido eleito. Nada como isto tinha acontecido em qualquer país árabe. Abbas é agora o único líder árabe que chegou ao poder numa eleição mais ou menos livre.
Será a sociedade palestiniana tão diferente de outras sociedades árabes? Não verdadeiramente. Mas houve alguns factores únicos no contexto palestiniano. Primeiro, houve forte pressão externa: confrontados e exasperados com o estilo autocrático de Arafat, os EUA e a União Europeia disseram claramente aos palestinianos que qualquer futuro apoio para a sua demanda da independência dependeria de terem um processo democrático razoavelmente aceitável.
Em segundo lugar, a maior parte dos palestinianos entendeu que a sua capacidade de atravessar tal processo democrático era em si um significativo passo na sua luta contra Israel. Finalmente, os palestinianos têm sido expostos não só às agruras da ocupação israelita (...) como também puderam experimentar uma democracia liberal em funcionamento - uma imprensa livre, um poder judicial independente e pluralismo político. A dialética da ocupação desempenha estranhos jogos, tanto com o ocupante como com o ocupado.
As eleições palestinianas foram vistas em todo o mundo árabe na Al-Jazira e em outros canais árabes. Devem ter focado a mente das pessoas na sua própria situação política. Se os palestinianos, sob ocupação israelita, podem escolher os seus próprios líderes, por que é que o mesmo não poderá acontecer no Cairo ou em Damasco, em Riad ou Argel?
Quando o júbilo e os cumprimentos aos palestinianos diminuírem, tanto os governantes como as massas árabes poderão começar a fazer algumas perguntas difíceis. Os palestinianos demonstraram não ser verdade que uma sociedade árabe não possa progredir para instituições representativas. Portanto, por que é que este progresso não poderá ser seguido em outras sociedades árabes?
Talvez uma bomba-relógio tenha sido colocada sob os tronos dos potentados árabes - reis, emires e presidentes. Enquanto o Iraque - uma tentativa de importar a democracia pela força - está a falhar, as condições paradoxais de uma democracia árabe sob ocupação israelita poderão ser uma ameaça que os dirigentes árabes ainda não compreenderam.
# posted by J. @ 1:47 a.m.

Informação é poder e, hoje, uma maior parte do mundo tem acesso a ela
Há um ano, a então Conselheira para a Segurança Nacional dos Estados Unidos Condoleezza Rice, anunciou "Estamos, antes de mais, envolvidos numa guerra ideológica e não numa guerra de exércitos."
Ela estava certa, mas é uma guerra que os Estados Unidos estão a perder, porque são regularmente ultrapassados pela Al-Qaeda.
O antiamericanismo crescente em todo o mundo ameaça privar os EUA do poder de atracção de que necessitam para serem bem sucedidos na luta contra o terrorismo.
Como ficou demonstrado pelo Iraque, o poder militar puro e duro não consegue por si só fornecer uma solução.
Sondagens após sondagens confirmam que o poder de atracção da América diminuiu, particularmente no mundo islâmico. Mesmo nos países supostamente amigos como a Jordânia e o Paquistão, há mais pessoas a dizerem que confiam em Ussama Ben Laden do que em George Bush.
Informação é poder e, actualmente, uma muito maior parte do mundo tem acesso a ela. Os dias em que funcionários dos Negócios Estrangeiros dos EUA iam de jipe até regiões remotas do Terceiro Mundo para mostrarem filmes em bobinas a aldeões isolados, acabaram há muito. Os avanços tecnológicos levaram a uma explosão da informação, e o público tornou-se mais sensível à propaganda. O mundo está submergido em informação, alguma verdadeira, outra enganadora.
Em resultado disto, a política tornou-se num concurso sobre credibilidade.
Enquanto o mundo do poder político tradicional é tipicamente definido por aqueles cujo poder militar ou económico vence, a política, numa era da informação, é acerca de quem tem a história vencedora.
Os Governos competem uns com os outros e com outras organizações para melhorarem a sua própria credibilidade e enfraquecer a dos seus opositores. Infelizmente, o Governo dos EUA não acompanhou a tendência.
Até o Conselho de Ciência da Defesa do Pentágono admite isto, afirmando que a comunicação estratégica da América "tem falta de direcção presidencial, de coordenação eficaz entre as agências, de optimização da cooperação com o sector privado e de recursos adequados".
Nos últimos anos da Administração Clinton, o Congresso aboliu erradamente a Agência de Informação dos EUA e distribuiu as suas tarefas a um novo subsecretário para a Diplomacia Pública, no Departamento de Estado.
Este posto tem sido, subsequentemente, deixado vago ou, durante dois dos últimos quatro anos, preenchido apenas numa base interina.
O orçamento total para a diplomacia pública (emissão, informação e programas de intercâmbio) é de 1200 milhões de dólares, aproximadamente o mesmo de França ou do que o McDonald's gasta em publicidade.
O Governo americano gasta 450 vezes mais em poder militar do que em poder de atracção.
Em 1963, Edward R. Murrow, o famoso jornalista que dirigiu a Agência de Informação dos EUA na Administração Kennedy, definiu diplomacia pública como interacções não apenas com Governos estrangeiros, mas, principalmente, com indivíduos e organizações não-governamentais que, frequentemente, apresentavam uma variedade de pontos de vista privados além dos governamentais.
Os cépticos que tratam a "diplomacia pública" como um eufemismo para a emissão de propaganda governamental falham o objectivo. A simples propaganda carece de credibilidade e é, por isso, contraproducente. A diplomacia pública, ao contrário, envolve a construção de relações a longo prazo.
Mais importante, na actual situação, será o desenvolvimento de uma estratégia a longo prazo de trocas culturais e educacionais com o objectivo de desenvolver uma sociedade civil nos países do Médio Oriente mais rica e mais aberta.
Dada a baixa credibilidade oficial, os porta-vozes mais eficazes da América serão, muitas vezes, os não governamentais.
Alguns analistas sugeriram até que os EUA criassem uma corporação não partidária para a diplomacia pública que recebesse fundos governamentais e privados mas que estimulasse as comunicações independentes além-fronteiras.
Corporações, fundações, universidades e outras organizações não lucrativas podem promover uma grande parte do trabalho de desenvolvimento de uma sociedade civil aberta.
As empresas e fundações podem oferecer tecnologia para ajudar a modernizar os sistemas de educação árabes e levá-los além da aprendizagem rotineira.
As universidades americanas podem instituir mais programas de intercâmbio para estudantes e professores.
As fundações podem apoiar o de-senvolvimento de instituições de estudos americanos em países muçulmanos ou programas de melhoramento do profissionalismo de jornalistas. Podem apoiar o ensino do inglês e financiar intercâmbios de estudantes.
Resumindo, há muitos caminhos para uma estratégia eficaz a longo prazo para criar recursos de poder de atracção e promover as condições para o desenvolvimento da democracia.
A resposta à recente catástrofe do tsunami na Ásia é um caso concreto. O Presidente George W. Bush ofereceu - embora atrasado - 350 mil milhões de dólares para ajuda às vítimas e enviou emissários de alto nível para a região.
Houve também um apoio privado substancial da parte de organizações de caridade e não lucrativas americanas. As imagens de soldados americanos a combater no Iraque foram suplantadas por imagens da América a distribuir ajuda às vítimas da catástrofe.
Mas é essencial que haja uma continuidade eficaz. Os anúncios prévios de Bush sobre o aumento do desenvolvimento da assistência e de esforços mais notórios para combater o HIV/Sida em África não foram apenas imperativos morais mas também investimentos importantes no poder de atracção da América.
Infelizmente, os fundos necessários para implementar estas iniciativas não fluíram tão rapidamente como a retórica. Igualmente importante, nenhum destes esforços ou nenhuma diplomacia pública será eficaz a não ser que o estilo e a substância das políticas dos EUA sejam consistentes com uma mensagem democrática mais alargada.
Isto significa que a tarefa mais importante de Condoleezza Rice como secretária de Estado será dar à política externa um estilo mais consultivo enquanto procura uma solução política para o Iraque e progressos para a paz no Médio Oriente.
Só então ela será capaz de começar a tarefa de recuperação da reputação abalada da América, apoiando a sua negligenciada diplomacia pública.
# posted by J. @ 1:32 a.m.
