1.13.2005

 

Plano Marshall reeditado

Colin L. Powell, secretário de Estado americano cessante.
7 Janeiro 2005
in «
Expresso online»

AGORA que George W. Bush ganhou um segundo mandato, é sua intenção prosseguir os objectivos de desenvolvimento económico com a mesma determinação que tornou possível a libertação do Iraque e do Afeganistão.

O presidente disse que pretende utilizar o capital político que obteve ao ganhar a confiança dos americanos e o mundo pode ter a certeza que muito desse capital será gasto a ajudar os mais pobres dos seus cidadãos. Ao fazê-lo, o presidente apoia-se no legado do Presidente John F. Kennedy, que fundou a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) em 1961. Ajudar os países pobres a prosperar faz há muito tempo parte dos nossos objectivos internacionais. Contudo, conseguir um sucesso geral e sustentado revelou-se mais difícil do que a maioria dos diplomatas e economistas previa inicialmente.

Chegámos à conclusão que a assistência ao desenvolvimento não funciona bem quando é concebida e executada como um limitado exercício económico. Tornou-se ainda mais claro que as atitudes políticas e culturais afectam o comportamento económico dos indivíduos e que foi a história que moldou as instituições económicas das sociedades. Os factores externos, incluindo as condições de segurança, também desempenham um papel na definição do progresso económico, especialmente quando a globalização se mistura no destino dos países. É óbvio que o desenvolvimento, a democracia e a segurança estão indissoluvelmente ligados. A mitigação da pobreza não pode ter sucesso sem um crescimento económico sustentado, o que requer que os políticos assumam seriamente os desafios da boa governação. Ao mesmo tempo, não podemos confiar em que novas e muitas vezes frágeis democracias possam ser sustentáveis, nem que os valores democráticos possam continuar a ser espalhados, a menos que trabalhemos duramente e de modo inteligente no desenvolvimento económico. E nenhum país, por muito poderoso que seja, pode garantir a segurança do seu povo enquanto o desespero económico e a injustiça se misturarem com a tirania e o fanatismo.

O desenvolvimento não é um tema político «soft», mas é um tema central de segurança nacional. Embora vejamos uma ligação entre terrorismo e pobreza, não acreditamos que a pobreza seja causa directa do terrorismo. Poucos terroristas são pobres. Os chefes do grupo do 11 de Setembro eram todos homens instruídos, muito longe do escalão inferior das respectivas sociedades. A miséria gera a frustração e o rancor, de que os chefes ideológicos se servem para obter apoio - ou consentimento - para o terrorismo, em especial naqueles países em que a miséria se alia à falta de direitos políticos e de liberdades fundamentais.

A ligação entre miséria e ausência de liberdade não é acidental. Embora a dotação de recursos modele o desenvolvimento, a pobreza não é inevitável em países que possuem poucos recursos naturais. Afinal, a Holanda e a Veneza de outrora, bem como Singapura e Israel de hoje, são pequenos territórios sem recursos naturais significativos - mas não sofreram de miséria nem de impotência.

A causa fundamental da pobreza é a injustiça social e os maus governos que a encorajam. A miséria surge e persiste onde a corrupção é endémica e a iniciativa é reprimida, onde a justiça mais elementar, garantida por um Estado de direito, não existe. Em tais circunstâncias, a miséria é uma agressão à dignidade humana, e nessa agressão reside a semente natural da revolta humana. Nos Estados Unidos, compreendemos que a guerra contra o terrorismo não pode ser ganha a menos que enfrentemos as raízes sociais e políticas da miséria. Queremos levar as pessoas à justiça se cometerem actos terroristas, mas também queremos levar a justiça às pessoas.

Pretendemos ajudar outros a conseguir governos representativos que possam garantir oportunidade e justiça social. Queremos libertar o espírito humano para que a iniciativa empresarial, o investimento e o comércio possam florescer. Este objectivo é a condição prévia social e política indispensável para um desenvolvimento sustentado; são estes os meios que nos permitirão arrancar pela raiz o apoio social às estruturas do terrorismo.

O desenvolvimento não é apenas uma tarefa difícil e complexa; é também uma tarefa enorme. Metade das pessoas deste planeta, cerca de três mil milhões de seres humanos, vive numa miséria absoluta. Mais de mil milhões não têm acesso a água potável. Dois mil milhões não têm saneamento básico adequado nem energia eléctrica. Por muito complexo e pesado que seja, fizemos frente ao desafio e, para o fazer, juntámo-nos a outros países para reformular a política de desenvolvimento a nível mundial.

A Conferência sobre o Financiamento para o Desenvolvimento, realizada em Monterrey, México, em 2002, chegou a um novo consenso sobre desenvolvimento. É um consenso que partilhamos totalmente e que tem três pilares centrais: um empenhamento partilhado num crescimento económico liderado pelo sector privado; desenvolvimento social; e uma gestão correcta dos recursos naturais, construída sobre uma base de boa governação e do primado da lei.

Esta tarefa não é fácil; os resultados não se vêem de um dia para o outro. O caminho para as reformas e o desenvolvimento tem muitos obstáculos. Os Estados Unidos têm uma obrigação moral particular de ajudar a ultrapassar essas dificuldades, e estamos a fazê-lo através das políticas de desenvolvimento mais criativas desde a fundação da USAID, no que será, se totalmente financiado pelo Congresso, o contributo mais generoso desde o Plano Marshall.

Até 2006, a assistência do governo dos EUA terá duplicado relativamente a 2000, e a trajectória continua ascendente. Se somarmos à assistência oficial ao desenvolvimento, as importações americanas dos países mais pobres e os donativos filantrópicos voluntários de cidadãos privados e fundações, os Estados Unidos respondem sozinhos por mais de 65 por cento das actividades de desenvolvimento económico do Grupo dos Sete. O desenvolvimento é uma pesada empreitada, mas é crucial.

O que está em causa é se a globalização poderá funcionar para um número suficiente de pessoas e de forma suficiente para propiciar um mundo que seja estável e próspero. Acreditamos que isso é possível e estamos determinados a assegurar esse resultado, para nós e para outros.


(C) 2005, GLOBAL VIEWPOINT/FOREIGN POLICY

DISTRIBUÍDO POR TRIBUNE MEDIA SERVICES, INC.

Tradução de Aida Macedo




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