2.01.2005

 

Apaziguamento Revisitado

Por VACLAV HAVEL
Domingo, 30 de Janeiro de 2005
in «
PÚBLICO»

Lembro-me como se fosse hoje das situações difíceis, às vezes um pouco grotescas, arriscada e constrangedoras nas quais se viam envolvidos os diplomatas ocidentais durante a guerra-fria. Deparavam-se regularmente com a questão delicada de saber se deviam ou não convidar para as respectivas embaixadas subscritores da Carta 77, activistas dos direitos humanos, críticos do regime comunista, políticos afastados ou mesmo escritores banidos, académicos e jornalistas - gente de quem normalmente os diplomatas são amigos.

Às vezes, nós, os dissidentes, não éramos convidados mas recebíamos as devidas desculpas; outras, recebíamos convite mas não íamos para não complicar a situação dos nossos corajosos amigos diplomatas. Ou então éramos convidados para chegar mais cedo, na esperança de que já tivéssemos saído antes de chegarem os representantes oficiais, o que por vezes resultava, outras nem por isso. Nestas ocasiões, ou os representantes oficiais abandonavam a embaixada em protesto pela nossa presença, ou saíamos nós à pressa, ou fingíamos todos que não percebíamos nada do que se estava a passar, ou até - ainda que raramente - chegávamos à fala uns com os outros, nos únicos momentos de diálogo entre o regime e a oposição, descontando os nossos encontros no tribunal.

Tudo isto acontecia quando a Cortina de Ferro dividia a Europa - e o mundo - em campos opostos. Os diplomatas ocidentais tinham de levar em consideração os interesses económicos dos seus países. Mas, ao contrário do lado soviético, levavam muito a sério a ideia da "dissidência versus comércio". Não me consigo lembrar de nenhuma ocasião em que o Ocidente ou qualquer das suas organizações (NATO, Comunidade Europeia, etc.) tivessem lançado qualquer apelo público recomendação ou declaração dizendo que um qualquer grupo de pessoas de espírito livre - mesmo que delimitado - não devesse ser convidado para as festas, celebrações ou recepções diplomáticas.

E no entanto é a isto que hoje estamos a assistir. Uma das mais fortes e mais poderosas instituições do mundo - a União Europeia - não hesita em prometer publicamente à ditadura cubana que reinstalará o "apartheid" diplomático. As embaixadas da UE em Havana passarão a seleccionar as suas listas de convidados de acordo com os desejos do governo de Cuba. As vistas curtas do primeiro-ministro José Zapatero de Espanha acabaram por prevalecer.

Tentemos imaginar o que vai acontecer: em cada embaixada europeia, há-de haver alguém encarregado de escrutinar a lista de convidados, nome a nome, e avaliar até que ponto as pessoas consideradas se comportam livremente ou falam livremente em público, até que ponto são críticos do regime, ou mesmo se são antigos presos políticos. As listas serão reduzidas e alguns nomes serão apagados, mesmo que isto signifique a eliminação de alguns amigos pessoais dos diplomatas responsáveis pelo escrutínio, pessoas a quem já prestaram diversas formas de apoio intelectual, político e material. Será ainda pior se os países da União tentarem disfarçar as suas actividades discriminatórias, passando a convidar para as suas embaixadas apenas pessoal diplomático.

Não consigo imaginar uma forma melhor de a União desonrar os nobres ideais da liberdade, igualdade e dos direitos humanos que professa - os mesmos princípios que volta a reafirmar na sua Constituição. Para proteger os lucros das empresas europeias em Havana, a União deixará de convidar pessoas de espírito livre para as suas embaixadas, apagando os seus nomes perante um cenho franzido na face do ditador e dos seus associados. É difícil de imaginar um acordo mais vergonhoso.

Os dissidentes cubanos viverão bem sem as festas e a conversa fácil das recepções das embaixadas. Esta perseguição poderá talvez agravar as condições do seu combate, mas vão certamente sobreviver. A questão é saber se o Ocidente também sobreviverá.

Hoje, a União está a dançar ao som da música de Fidel. O que quer dizer que, amanhã, pode não resistir à oportunidade de construir bases de mísseis nas costas da república Popular da China. No dia seguinte, pode permitir que as suas decisões sobre a Tchetchénia sejam ditadas pelos conselheiros do Presidente Vladimir Putin. Depois, por qualquer razão desconhecida, pode fazer depender a sua assistência a África dos laços fraternos com os piores ditadores africanos.

Onde é que tudo isto acabará? Na libertação de Milosevic? Na recusa de um visto ao activista dos direitos humanos russo Sergey Kovaliov? Num pedido de desculpas a Saddam Hussein? Na abertura de conversações de paz com a Al Qaeda?

Será terrível para a União se decidir recuperar um das suas piores tradições políticas, a de que o mal deve ser apaziguado e que a melhor maneira de conseguir a paz é através da indiferença perante a liberdade dos outros. O contrário é que é verdadeiro: estas políticas resultam da indiferença perante a nossa própria liberdade e abrem o caminho à guerra. Apesar de tudo, a Europa uniu-se para defender a sua liberdade e os seus valores, não para sacrificá-los à ideia de coexistência harmoniosas com ditadores e, por isso, arrisca-se a ser gradualmente infiltrada pelo vírus anti-democrático.

Acredito firmemente que os novos membros da União Europeia não esquecerão a sua experiência de totalitarismo e de oposição pacífica ao mal, e que a sua experiência acabe por reflectir-se no seu comportamento nas instituições europeias. Este será, sem qualquer dúvida, o melhor contributo que podem dar aos fundamentos morais, espirituais e políticos que unem a Europa.




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