2.01.2005
Lições de Democracia para o Mundo Árabe
Por Shlomo Avineri - professor de Ciência Política na Universidade Hebraica de Jerusalém;
Exclusivo PÚBLICO/ Project Syndicate
Sábado, 29 de Janeiro de 2005
A euforia que saudou a eleição de Mahmoud Abbas para presidente da Autoridade Palestiniana talvez se justifique. Mas agora é tempo de uma apreciação clara do que se apresenta aos palestinianos, aos israelitas e, talvez de forma mais importante, ao mundo árabe em geral.
Tal apreciação requer o reconhecimento de que a eleição não foi sem falhas: o Hamas e a Jihad Islâmica boicotaram as eleições e Marwan Barghouti, membro da Fatah tal como Abbas e o candidato que poderia gravemente desafiá-lo, foi persuadido pela liderança do movimento a retirar a sua candidatura, de forma a apresentar uma frente unida. Além disso, Abbas (também conhecido por Abu Mazen) conseguiu colocar sob seu controlo uma dezena de serviços e milícias de segurança palestinianos. Isto garantiu a sua vitória, se bem que os desfiles de homens armados a agitar armas nos seus comícios não seja exactamente o que as normas democráticas prevêem.
No entanto, permanece o facto de que, depois de décadas de liderança autocrática de Yasser Arafat, e apesar dos constrangimentos óbvios da contínua ocupação israelita, os palestinianos elegeram um presidente numa eleição relativamente livre e competitiva. Durante anos, Arafat evitou efectuar eleições, tal como requerido pelas leis da Autoridade Palestiniana, sob o pretexto de que não se poderiam efectuar sob ocupação: mas, dois meses depois da sua morte, houve eleições, com grande êxito.
As presidenciais vão obviamente servir como catalisador para negociações renovadas - e possivelmente com mais êxito - com Israel. Mas o impacto do voto palestiniano também será observado atentamente no mundo árabe, porque o que aconteceu na Cisjordânia e na Faixa de Gaza não tem paralelo nos anais da política árabe. Abbas beneficiará do facto de ter sido eleito. Nada como isto tinha acontecido em qualquer país árabe. Abbas é agora o único líder árabe que chegou ao poder numa eleição mais ou menos livre.
Será a sociedade palestiniana tão diferente de outras sociedades árabes? Não verdadeiramente. Mas houve alguns factores únicos no contexto palestiniano. Primeiro, houve forte pressão externa: confrontados e exasperados com o estilo autocrático de Arafat, os EUA e a União Europeia disseram claramente aos palestinianos que qualquer futuro apoio para a sua demanda da independência dependeria de terem um processo democrático razoavelmente aceitável.
Em segundo lugar, a maior parte dos palestinianos entendeu que a sua capacidade de atravessar tal processo democrático era em si um significativo passo na sua luta contra Israel. Finalmente, os palestinianos têm sido expostos não só às agruras da ocupação israelita (...) como também puderam experimentar uma democracia liberal em funcionamento - uma imprensa livre, um poder judicial independente e pluralismo político. A dialética da ocupação desempenha estranhos jogos, tanto com o ocupante como com o ocupado.
As eleições palestinianas foram vistas em todo o mundo árabe na Al-Jazira e em outros canais árabes. Devem ter focado a mente das pessoas na sua própria situação política. Se os palestinianos, sob ocupação israelita, podem escolher os seus próprios líderes, por que é que o mesmo não poderá acontecer no Cairo ou em Damasco, em Riad ou Argel?
Quando o júbilo e os cumprimentos aos palestinianos diminuírem, tanto os governantes como as massas árabes poderão começar a fazer algumas perguntas difíceis. Os palestinianos demonstraram não ser verdade que uma sociedade árabe não possa progredir para instituições representativas. Portanto, por que é que este progresso não poderá ser seguido em outras sociedades árabes?
Talvez uma bomba-relógio tenha sido colocada sob os tronos dos potentados árabes - reis, emires e presidentes. Enquanto o Iraque - uma tentativa de importar a democracia pela força - está a falhar, as condições paradoxais de uma democracia árabe sob ocupação israelita poderão ser uma ameaça que os dirigentes árabes ainda não compreenderam.
Sábado, 29 de Janeiro de 2005
A euforia que saudou a eleição de Mahmoud Abbas para presidente da Autoridade Palestiniana talvez se justifique. Mas agora é tempo de uma apreciação clara do que se apresenta aos palestinianos, aos israelitas e, talvez de forma mais importante, ao mundo árabe em geral.
Tal apreciação requer o reconhecimento de que a eleição não foi sem falhas: o Hamas e a Jihad Islâmica boicotaram as eleições e Marwan Barghouti, membro da Fatah tal como Abbas e o candidato que poderia gravemente desafiá-lo, foi persuadido pela liderança do movimento a retirar a sua candidatura, de forma a apresentar uma frente unida. Além disso, Abbas (também conhecido por Abu Mazen) conseguiu colocar sob seu controlo uma dezena de serviços e milícias de segurança palestinianos. Isto garantiu a sua vitória, se bem que os desfiles de homens armados a agitar armas nos seus comícios não seja exactamente o que as normas democráticas prevêem.
No entanto, permanece o facto de que, depois de décadas de liderança autocrática de Yasser Arafat, e apesar dos constrangimentos óbvios da contínua ocupação israelita, os palestinianos elegeram um presidente numa eleição relativamente livre e competitiva. Durante anos, Arafat evitou efectuar eleições, tal como requerido pelas leis da Autoridade Palestiniana, sob o pretexto de que não se poderiam efectuar sob ocupação: mas, dois meses depois da sua morte, houve eleições, com grande êxito.
As presidenciais vão obviamente servir como catalisador para negociações renovadas - e possivelmente com mais êxito - com Israel. Mas o impacto do voto palestiniano também será observado atentamente no mundo árabe, porque o que aconteceu na Cisjordânia e na Faixa de Gaza não tem paralelo nos anais da política árabe. Abbas beneficiará do facto de ter sido eleito. Nada como isto tinha acontecido em qualquer país árabe. Abbas é agora o único líder árabe que chegou ao poder numa eleição mais ou menos livre.
Será a sociedade palestiniana tão diferente de outras sociedades árabes? Não verdadeiramente. Mas houve alguns factores únicos no contexto palestiniano. Primeiro, houve forte pressão externa: confrontados e exasperados com o estilo autocrático de Arafat, os EUA e a União Europeia disseram claramente aos palestinianos que qualquer futuro apoio para a sua demanda da independência dependeria de terem um processo democrático razoavelmente aceitável.
Em segundo lugar, a maior parte dos palestinianos entendeu que a sua capacidade de atravessar tal processo democrático era em si um significativo passo na sua luta contra Israel. Finalmente, os palestinianos têm sido expostos não só às agruras da ocupação israelita (...) como também puderam experimentar uma democracia liberal em funcionamento - uma imprensa livre, um poder judicial independente e pluralismo político. A dialética da ocupação desempenha estranhos jogos, tanto com o ocupante como com o ocupado.
As eleições palestinianas foram vistas em todo o mundo árabe na Al-Jazira e em outros canais árabes. Devem ter focado a mente das pessoas na sua própria situação política. Se os palestinianos, sob ocupação israelita, podem escolher os seus próprios líderes, por que é que o mesmo não poderá acontecer no Cairo ou em Damasco, em Riad ou Argel?
Quando o júbilo e os cumprimentos aos palestinianos diminuírem, tanto os governantes como as massas árabes poderão começar a fazer algumas perguntas difíceis. Os palestinianos demonstraram não ser verdade que uma sociedade árabe não possa progredir para instituições representativas. Portanto, por que é que este progresso não poderá ser seguido em outras sociedades árabes?
Talvez uma bomba-relógio tenha sido colocada sob os tronos dos potentados árabes - reis, emires e presidentes. Enquanto o Iraque - uma tentativa de importar a democracia pela força - está a falhar, as condições paradoxais de uma democracia árabe sob ocupação israelita poderão ser uma ameaça que os dirigentes árabes ainda não compreenderam.