2.01.2005
Vendendo a América
Informação é poder e, hoje, uma maior parte do mundo tem acesso a ela
Há um ano, a então Conselheira para a Segurança Nacional dos Estados Unidos Condoleezza Rice, anunciou "Estamos, antes de mais, envolvidos numa guerra ideológica e não numa guerra de exércitos."
Ela estava certa, mas é uma guerra que os Estados Unidos estão a perder, porque são regularmente ultrapassados pela Al-Qaeda.
O antiamericanismo crescente em todo o mundo ameaça privar os EUA do poder de atracção de que necessitam para serem bem sucedidos na luta contra o terrorismo.
Como ficou demonstrado pelo Iraque, o poder militar puro e duro não consegue por si só fornecer uma solução.
Sondagens após sondagens confirmam que o poder de atracção da América diminuiu, particularmente no mundo islâmico. Mesmo nos países supostamente amigos como a Jordânia e o Paquistão, há mais pessoas a dizerem que confiam em Ussama Ben Laden do que em George Bush.
Informação é poder e, actualmente, uma muito maior parte do mundo tem acesso a ela. Os dias em que funcionários dos Negócios Estrangeiros dos EUA iam de jipe até regiões remotas do Terceiro Mundo para mostrarem filmes em bobinas a aldeões isolados, acabaram há muito. Os avanços tecnológicos levaram a uma explosão da informação, e o público tornou-se mais sensível à propaganda. O mundo está submergido em informação, alguma verdadeira, outra enganadora.
Em resultado disto, a política tornou-se num concurso sobre credibilidade.
Enquanto o mundo do poder político tradicional é tipicamente definido por aqueles cujo poder militar ou económico vence, a política, numa era da informação, é acerca de quem tem a história vencedora.
Os Governos competem uns com os outros e com outras organizações para melhorarem a sua própria credibilidade e enfraquecer a dos seus opositores. Infelizmente, o Governo dos EUA não acompanhou a tendência.
Até o Conselho de Ciência da Defesa do Pentágono admite isto, afirmando que a comunicação estratégica da América "tem falta de direcção presidencial, de coordenação eficaz entre as agências, de optimização da cooperação com o sector privado e de recursos adequados".
Nos últimos anos da Administração Clinton, o Congresso aboliu erradamente a Agência de Informação dos EUA e distribuiu as suas tarefas a um novo subsecretário para a Diplomacia Pública, no Departamento de Estado.
Este posto tem sido, subsequentemente, deixado vago ou, durante dois dos últimos quatro anos, preenchido apenas numa base interina.
O orçamento total para a diplomacia pública (emissão, informação e programas de intercâmbio) é de 1200 milhões de dólares, aproximadamente o mesmo de França ou do que o McDonald's gasta em publicidade.
O Governo americano gasta 450 vezes mais em poder militar do que em poder de atracção.
Em 1963, Edward R. Murrow, o famoso jornalista que dirigiu a Agência de Informação dos EUA na Administração Kennedy, definiu diplomacia pública como interacções não apenas com Governos estrangeiros, mas, principalmente, com indivíduos e organizações não-governamentais que, frequentemente, apresentavam uma variedade de pontos de vista privados além dos governamentais.
Os cépticos que tratam a "diplomacia pública" como um eufemismo para a emissão de propaganda governamental falham o objectivo. A simples propaganda carece de credibilidade e é, por isso, contraproducente. A diplomacia pública, ao contrário, envolve a construção de relações a longo prazo.
Mais importante, na actual situação, será o desenvolvimento de uma estratégia a longo prazo de trocas culturais e educacionais com o objectivo de desenvolver uma sociedade civil nos países do Médio Oriente mais rica e mais aberta.
Dada a baixa credibilidade oficial, os porta-vozes mais eficazes da América serão, muitas vezes, os não governamentais.
Alguns analistas sugeriram até que os EUA criassem uma corporação não partidária para a diplomacia pública que recebesse fundos governamentais e privados mas que estimulasse as comunicações independentes além-fronteiras.
Corporações, fundações, universidades e outras organizações não lucrativas podem promover uma grande parte do trabalho de desenvolvimento de uma sociedade civil aberta.
As empresas e fundações podem oferecer tecnologia para ajudar a modernizar os sistemas de educação árabes e levá-los além da aprendizagem rotineira.
As universidades americanas podem instituir mais programas de intercâmbio para estudantes e professores.
As fundações podem apoiar o de-senvolvimento de instituições de estudos americanos em países muçulmanos ou programas de melhoramento do profissionalismo de jornalistas. Podem apoiar o ensino do inglês e financiar intercâmbios de estudantes.
Resumindo, há muitos caminhos para uma estratégia eficaz a longo prazo para criar recursos de poder de atracção e promover as condições para o desenvolvimento da democracia.
A resposta à recente catástrofe do tsunami na Ásia é um caso concreto. O Presidente George W. Bush ofereceu - embora atrasado - 350 mil milhões de dólares para ajuda às vítimas e enviou emissários de alto nível para a região.
Houve também um apoio privado substancial da parte de organizações de caridade e não lucrativas americanas. As imagens de soldados americanos a combater no Iraque foram suplantadas por imagens da América a distribuir ajuda às vítimas da catástrofe.
Mas é essencial que haja uma continuidade eficaz. Os anúncios prévios de Bush sobre o aumento do desenvolvimento da assistência e de esforços mais notórios para combater o HIV/Sida em África não foram apenas imperativos morais mas também investimentos importantes no poder de atracção da América.
Infelizmente, os fundos necessários para implementar estas iniciativas não fluíram tão rapidamente como a retórica. Igualmente importante, nenhum destes esforços ou nenhuma diplomacia pública será eficaz a não ser que o estilo e a substância das políticas dos EUA sejam consistentes com uma mensagem democrática mais alargada.
Isto significa que a tarefa mais importante de Condoleezza Rice como secretária de Estado será dar à política externa um estilo mais consultivo enquanto procura uma solução política para o Iraque e progressos para a paz no Médio Oriente.
Só então ela será capaz de começar a tarefa de recuperação da reputação abalada da América, apoiando a sua negligenciada diplomacia pública.
Ela estava certa, mas é uma guerra que os Estados Unidos estão a perder, porque são regularmente ultrapassados pela Al-Qaeda.
O antiamericanismo crescente em todo o mundo ameaça privar os EUA do poder de atracção de que necessitam para serem bem sucedidos na luta contra o terrorismo.
Como ficou demonstrado pelo Iraque, o poder militar puro e duro não consegue por si só fornecer uma solução.
Sondagens após sondagens confirmam que o poder de atracção da América diminuiu, particularmente no mundo islâmico. Mesmo nos países supostamente amigos como a Jordânia e o Paquistão, há mais pessoas a dizerem que confiam em Ussama Ben Laden do que em George Bush.
Informação é poder e, actualmente, uma muito maior parte do mundo tem acesso a ela. Os dias em que funcionários dos Negócios Estrangeiros dos EUA iam de jipe até regiões remotas do Terceiro Mundo para mostrarem filmes em bobinas a aldeões isolados, acabaram há muito. Os avanços tecnológicos levaram a uma explosão da informação, e o público tornou-se mais sensível à propaganda. O mundo está submergido em informação, alguma verdadeira, outra enganadora.
Em resultado disto, a política tornou-se num concurso sobre credibilidade.
Enquanto o mundo do poder político tradicional é tipicamente definido por aqueles cujo poder militar ou económico vence, a política, numa era da informação, é acerca de quem tem a história vencedora.
Os Governos competem uns com os outros e com outras organizações para melhorarem a sua própria credibilidade e enfraquecer a dos seus opositores. Infelizmente, o Governo dos EUA não acompanhou a tendência.
Até o Conselho de Ciência da Defesa do Pentágono admite isto, afirmando que a comunicação estratégica da América "tem falta de direcção presidencial, de coordenação eficaz entre as agências, de optimização da cooperação com o sector privado e de recursos adequados".
Nos últimos anos da Administração Clinton, o Congresso aboliu erradamente a Agência de Informação dos EUA e distribuiu as suas tarefas a um novo subsecretário para a Diplomacia Pública, no Departamento de Estado.
Este posto tem sido, subsequentemente, deixado vago ou, durante dois dos últimos quatro anos, preenchido apenas numa base interina.
O orçamento total para a diplomacia pública (emissão, informação e programas de intercâmbio) é de 1200 milhões de dólares, aproximadamente o mesmo de França ou do que o McDonald's gasta em publicidade.
O Governo americano gasta 450 vezes mais em poder militar do que em poder de atracção.
Em 1963, Edward R. Murrow, o famoso jornalista que dirigiu a Agência de Informação dos EUA na Administração Kennedy, definiu diplomacia pública como interacções não apenas com Governos estrangeiros, mas, principalmente, com indivíduos e organizações não-governamentais que, frequentemente, apresentavam uma variedade de pontos de vista privados além dos governamentais.
Os cépticos que tratam a "diplomacia pública" como um eufemismo para a emissão de propaganda governamental falham o objectivo. A simples propaganda carece de credibilidade e é, por isso, contraproducente. A diplomacia pública, ao contrário, envolve a construção de relações a longo prazo.
Mais importante, na actual situação, será o desenvolvimento de uma estratégia a longo prazo de trocas culturais e educacionais com o objectivo de desenvolver uma sociedade civil nos países do Médio Oriente mais rica e mais aberta.
Dada a baixa credibilidade oficial, os porta-vozes mais eficazes da América serão, muitas vezes, os não governamentais.
Alguns analistas sugeriram até que os EUA criassem uma corporação não partidária para a diplomacia pública que recebesse fundos governamentais e privados mas que estimulasse as comunicações independentes além-fronteiras.
Corporações, fundações, universidades e outras organizações não lucrativas podem promover uma grande parte do trabalho de desenvolvimento de uma sociedade civil aberta.
As empresas e fundações podem oferecer tecnologia para ajudar a modernizar os sistemas de educação árabes e levá-los além da aprendizagem rotineira.
As universidades americanas podem instituir mais programas de intercâmbio para estudantes e professores.
As fundações podem apoiar o de-senvolvimento de instituições de estudos americanos em países muçulmanos ou programas de melhoramento do profissionalismo de jornalistas. Podem apoiar o ensino do inglês e financiar intercâmbios de estudantes.
Resumindo, há muitos caminhos para uma estratégia eficaz a longo prazo para criar recursos de poder de atracção e promover as condições para o desenvolvimento da democracia.
A resposta à recente catástrofe do tsunami na Ásia é um caso concreto. O Presidente George W. Bush ofereceu - embora atrasado - 350 mil milhões de dólares para ajuda às vítimas e enviou emissários de alto nível para a região.
Houve também um apoio privado substancial da parte de organizações de caridade e não lucrativas americanas. As imagens de soldados americanos a combater no Iraque foram suplantadas por imagens da América a distribuir ajuda às vítimas da catástrofe.
Mas é essencial que haja uma continuidade eficaz. Os anúncios prévios de Bush sobre o aumento do desenvolvimento da assistência e de esforços mais notórios para combater o HIV/Sida em África não foram apenas imperativos morais mas também investimentos importantes no poder de atracção da América.
Infelizmente, os fundos necessários para implementar estas iniciativas não fluíram tão rapidamente como a retórica. Igualmente importante, nenhum destes esforços ou nenhuma diplomacia pública será eficaz a não ser que o estilo e a substância das políticas dos EUA sejam consistentes com uma mensagem democrática mais alargada.
Isto significa que a tarefa mais importante de Condoleezza Rice como secretária de Estado será dar à política externa um estilo mais consultivo enquanto procura uma solução política para o Iraque e progressos para a paz no Médio Oriente.
Só então ela será capaz de começar a tarefa de recuperação da reputação abalada da América, apoiando a sua negligenciada diplomacia pública.